Kinoshita

Posted on agosto 28, 2008

0


Ainda durante minhas férias da faculdade, entre as andanças buscando lugares que de alguma forma priorizam ou destacam o serviço de saquê, convenci meus pais a irmos jantar no Kinoshita (R. Jacques Félix, 405 – Vila Nova Conceição). A Vitorinha trabalhou como hostess lá por um mês e já tinha comentado. Além disso, como estou constantemente procurando informações, esse restaurante sempre aparecia ter uma especialista em saquê chamada Chisato Ino. Então, fiz a reserva por orientação da Vitória e fomos. Meu pai reclamou que ligaram para ele à tarde confirmando a reserva e dizendo que seriam apenas 15 minutos de tolerância ou a reserva estaria cancelada. Não sei qual foi o tom e nem sei se é padrão, mas achei um pouco desnecessário.

Kinoshita

Kinoshita

Chegamos lá pontualmente às 20:00. Fomos recebidos pela hostess e com a familiar saudação de Irashaimase vinda do balcão. Ela nos encaminhou à nossa mesa – entre o espelho d’agua com jardim japonês e o balcão/cozinha, dava para ver bem o trabalho da parte quente de lá. Fomos inicialmente atendidos pelo maitrê Araújo. Ele é super desenvolto; um showman. Contou que já morou fora e tudo mais. Minha mãe achou que ele foi meio “over” em alguns momentos, mas no geral bastante simpatico e atencioso. Ele nos explicou que o menu degustação é exclusivo àqueles que reservam balcão, o que não era o caso. Entretanto, ele poderia oferecer o que eles chamam de banquete do imperador; basicamente uma seleção de pratos que vem em uma sequência definida descrita pelo maitrê com grande entusiasmo. Os pratos seriam individuais e compartilhados por todos da mesa, no caso nós três. Eu que tenho dificuldades com cardápios (escolhas … ) preferi essa opção, preferimos, então.

Jardim

Jardim

Para beber, como não podia deixar de ser, meu pai pediu para ver a carta de saquês. Escrita delicadamente a mão e bem enxuta, a carta conta com cerca de 15 rótulo. Não há muitas opções de taça, maioria garrafas. Meu pai optou por uma garrafa pequena de 300 mL, devidamente servido em uma taça de vinho. Acho que foi o Mutsu Hassen – Junmai Daiginjo. Ele não adorou, mas provavelmente por ser um daiginjo que é muito leve e suave mesmo. Disse que faltava corpo (mas isso é outra história).

Minha mãe foi de cerveja. Araújo ofereceu uma super-mega-ultra-cerveja-premium brasileira Lust. Esta cerveja é produzida pela Eiseinbahn pelo método champenoise – sim o mesmo do champagne. Eu achei meio esquisita; é doce! Ela também não adorou não. E depois ficou bem brava ao ver o preço R$40,00 – vale?! Sei que o restaurante é upscale, mas não sei se vale isso tudo não.

Eu indo devagar e sempre, fui de água e vinho – branco, é claro. Pedi o que tivesse em taça e Araújo me serviu um Bordeaux Grand Terroir Sauvignon Blanc. Estava muito muito bom, mas tomei nem metade.

Lustres

Lustres

Então começou o banquete. Primeiro o Otoshi – aquele primeiro pratinho que servem, pode até chamar de couvert, eu acho. No caso era um karasumi – uma iguaria da culinária japonesa. São ovas de tainha que o chef Murakami, em vez de desidratar como feito tradicionalmente,  grelha levemente no azeite. Derrete na boca; maravilhoso.

Karasumi

Karasumi

Neste meio tempo, o chef Murakami surgiu na cozinha e saudou a todos presentes. Logo veio à nossa mesa que estava bem próxima e por onde ele inevitavelmente passaria. Perguntou como estava tudo. Até então, muito bom!
A seguir iniciando o banquete veio o Sunomono de lichia, com molho ponzo (vinagrete de shoyu com suco de laranja e limão), dedo-de-moça e nabo ralado. A orientação é para que se misture todos os ingredientes para apreciar melhor. Estou até salivando só de lembrar. A lichia faz toda a diferença. Prato super equilibrado. Delicioso.
Sunomono de lichia

Sunomono de lichia

Veio então o carpaccio de salmão com crocante de legumes, ovas de voador e molho de aceto balsâmico, shoyu e azeite. Meu pais não adoraram, mas eu gostei muito da combinação. O crocante de legumes é um tempura de fatias bem finas. Achei que o aceto trouxe a acidez certa para a untosidade do salmão e do azeite. Tá, talvez sem azeite. Adorei mesmo assim.
Carpaccio de salmão com crocante de legumes

Carpaccio de salmão com crocante de legumes

A seguir o Maguro Nuta – atum levemente selado com sumissô levemente picante, gema de codorna e cebolinha. Achei as fatias de atum meio grossas demais, mas o molho era adocicado e a pimenta na medida. A combinação ficou muito boa. Uma observação: a gema não é completamente crua, como estávamos do lado do setor quente observamos o aquecimento do ovo.
Maguro Nuta

Maguro Nuta

Então veio o sashimi. Porção pequena mas suficiente. Salmão, Robalo e Atum – e que atum!
Sashimi

Sashimi

E o sushi: maguro (atum), toro de cavalinha e vieiras. Primeiro, para mim, o tamanho do nigiri (bolinho de arroz) estava perfeito. Era bem miúdo e a fatia de peixe o cobria completamente.  Nada daquela coisa de rodízios e buffet (principalmente buffets de churrascaria) com um monte de arroz e uma lasca de peixe. O atum estava perfeito, o toro (parte mais gordurosa do peixe) estava divino, derrentendo (acho que nunca comi algo assim) e as vieiras deliciosas (nunca havia experimentado cruas).
toro de cavalinha, vieiras e atum

Sushi: toro de cavalinha, vieiras e atum

Ah, destaque para o wasabi (raiz forte). Esse eu nunca tinha comido igual. Ele é picante mas tem um adocicado bem marcante. O chef Murakami, que aliás vinha constantemente e ficou conversando com meu pai a todo momento, disse que importou do Japão, mas que só tinha sacos grandes. Da próxima vez vou pedir um pouco para levar para casa. Ah, antes de comermos o sashimi e o sushi, ele ofereceu o shoyu da casa. O sabor é super delicado. Na verdade é uma diluição do shoyu com outras coisas que eu não lembro agora.
Aliás o chef Murakami (achei esse reportagem mais atual) é um show a parte. Super sorridente, bem humorado e conversador. Em uma das conversas, o chef contou que gostaria que as pessoas percebessem as sutilezas dos pratos e que ele gostava de cozinhar para japoneses que eram mais exigentes e via isso com grande responsabilidade. Ele preza a qualidade do ingredientes – 80% são orgânicos. Não sei bem a história, mas o restaurante ficava na Liberdade e novos sócios resolveram levá-lo para a Vila Nova Conceição. Reposicionamento bem claro e definido. O único cliente nipônico naquela noite era o meu pai. Talvez por isso toda a super atenção dispensada (plus $$$).
Visão da nossa mesa

Visão da nossa mesa - muita limpeza e organização

O chef contou que o restaurante ainda estava crescendo e se definindo nessa nova localidade e o novo público. Então, ele perguntou se havíamos provado o missoshiru, pois ele era diferente do que se serve normalmente. A receita dele não leva hondashi (caldo de peixe em pó), nem ajinomoto e é um misto de akamissô com shiromissô (variações do missô). Eu que sou adoradora disse que não e ele nos ofereceu por sua conta. Realmente o sabor é bem delicado. Vale a pena – esqueci da foto.
Então vieram os quentes: Ebi Fry (camarão empanado com molho de tonkatsu com maçã verde) e picanha grelhada com rúcula e molha de mostarda com aliche. O camarão estava delicioso e super crocante além de ser bem grande. Eu só dispensaria o molho, mas porque não gosto muito dele mesmo. A picanha eu dispensava toda. Estava boa, mas não cabia na refeição, trocaria por um peixe grelhado facilmente.
Ebi Fry

Ebi Fry

Picanha com rúcula

Picanha com rúcula

Meus pais também pediram arroz e adoraram. Eles servem o arroz para sushi (koshihikari) produzido na Califórnia. 
Já estava bem satisfeita, mas as sobremesas me deixaram curiosas. Sorvete de machá (aquele chá verde em pó utilizado na cerimônia do chá) é algo que eu e minha mãe adoramos, quando bem feito. Nada de sorvete de creme misturado com o chá – a baunilha arruína no sabor. Bom mesmo é quando a base é de machá. O chef Murakami contou que o sorvete é feito lá mesmo, à mão pois não têm máquina. Talvez por esse motivo o sorvete fique um critais de gelo um pouco grande. A sensação é daquele sorvete que descongelou, mas ao mesmo tempo é bem cremoso e o sabor muito bom.
Servete de machá

Sorvete de machá

Esse ficou mais para a minha mãe, eu provei o bolo de chocolate com lichias. O bolo utiliza no ugar da farinha de trigo, castanha do pará ralada e também o chocolate de Valrhona. Fica super cremoso e úmido. As lichias são recheadas com ganache de chocolate branco. Delicioso.
Bolo de chocolate com lichias

Bolo de chocolate com lichias

Para finalizar pedí um chá – sencha. Nunca tinha tomado um tão bom. Mais uma vez era um produto importado do Japão.
Chá

Chá

Enfim, a noite que começou pelo saquê foi tomada pela comida. Até meu pais que reclamam das coisas gostaram. O serviço é muito bom, mas ainda não está 100%. Eles são muito talentosos. Sabem vender. Contam histórias de origem e mistificam as preparações. Sabem agradar – ainda que às vezes exagerem. Respondem a qualquer pergunta, trazem as embalagem dos produtos para  mostrar procedência. Atenção full-time. E até me deixaram fotografar sem caras e bocas!
O ambiente tem decoração clean com toques de oriente. Os ruídos são mínimos mesmo com a proximidade da mesa. Estávamos praticamente dentro da cozinha e a movimentação não incomodava. Tem uma área reservada, mais escura, bem bonita, mas eu prefiro ficar mais perto da ação mesmo.
Não tenho os preços individualmente mas a conta ficou em R$220,00 por pessoa com serviço. Sim, vão dizer que por esse valor o mínimo que se espera, mas não é bem assim que acontece. Claro que poderíamos ter pedido um prato cada um e pronto, mas toda a experiência vale o preço.
Recomendo, se você estiver disposto. Pretendo voltar, pra ficar no balcão dessa vez.
Pronto, acabou!
Anúncios
Posted in: Comidinhas, Sampa